14 de nov. de 2018

Ao meu amor não consumido (que me consome)

Eu penso em você esporadicamente, mas a intensidade nessas vezes é tanta que demoro dias para me recuperar.
Eu só estou sentada aqui pensando sobre o seu beijo e sobre você (por que foi que nós nunca nos beijamos mesmo?).
De tudo, me resta uma impressão e uma certeza:
- eu nunca amei ninguém antes de você;
- eu nunca amarei ninguém depois de você.
Não porque não gostaria, mas pela impossibilidade mesmo. Você é impossível.
Agora passo a desejar muito que um dia você volte. Estes dias são um looping de tristezas intermináveis e vontades inalcançáveis. Insaciada, sua presença rarefeita me deixa insaciada.
Todas essas palavras já devem ter sido ditas vezes não contáveis, mas só tenho essas pra tentar traduzir (agora já tô falando com você pelo texto, imaginando que um dia magicamente você lerá e voltará pra mim).
Agora me lembro de novo que só nos vimos uma vez. Um par de horas que se tornaram tudo.
Uma criança me disse ontem que as pessoas precisam saber que nada é tudo que se quer. Eu não sei se eu sei.

31 de ago. de 2018

Faço anos

Não sei que moções enviesadas pode ter o destino, que decidiu fazer cruzar nossos caminhos. Não sei quais foram as suas escolhas até aqui, ainda menos quais serão à frente, meu bem. Sei nada nada sobre a vida, veículos automotores ou pranchas de surf. Nunca nem ouvi falar daquela comida que você disse preferir. Meu vocabulário de francês se resume a 3 palavras, e de japonês à uma.
Quero te dizer que tenho muito medo do que não sei (e olha que é quase tudo!), mas ainda mais do pouco que pareço estar sabendo. Esse pouco é que me coloca em pânico.
Faço anos, meu bem. Anos que não saberia numerar. Faço anos que nunca senti jamais saber.

13 de ago. de 2018

Asas do tempo

Saí apressada, era muito tarde. Achei que tivesse mais tempo, mas me perdi nas horas.
Entrei também apressada, depois de atravessar toda a cidade, ônibus trânsito pessoas e, claro, estava atrasada (mas com uma determinação que só aquele tipo de urgência conseguiria provocar).
Obstinada a não mais olhar para o tempo perdido, me coloquei as pautas do dia e perseverei.
Uma hiância, dois dias, desassossego, tempo voando e você pousou, depois de entrar por aquela porta semi aberta.
Entrou e ficou. Tranquei a porta com nós dois lá dentro.
Nunca pensei que amaria um pássaro, mas você nunca mais passará. Voa, tempo!

25 de jan. de 2018

O craquelado e o ser

A dor vai começando em qualquer lugar até chegar nos ossos. Perdoe-me, não é bem que seja em 'qualquer lugar', sei muito bem onde ela começa. Começa lá onde alguma coisa me lembra que um dia fui descolada de um corpo, lá onde fui decepada e colocada para fora. Desde então, tento me grudar pedaço por pedaço, lasca por lasca...e o resultado fica sempre um tanto quanto disforme, como um souvenir de porcelana que caiu e nunca mais pôde ser inteiro, ainda que um hábil e paciente restaurador tenha conseguido fazer um bom trabalho; porém, o resultado é uma réplica e, por mais que seja bem próxima à original, o tempo vai completando o serviço que a queda iniciou.
Se tenho motivos pra me sentir inteira? Claro que sim. Mas é que fica meio difícil quando o craquelado é constituinte. Sorte a minha que os ossos são revestidos por aquela camada que chamamos 'pele', limite frágil entre o parecer e o completo desnudamento do estrago.
E tem dias que até a pele sofre.